Marcha da Maconha – Brasil 2008 » Blog Archive » A Marcha da Maconha e a hipocrisia, por Tico Santa Cruz

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Ao contrário de muitos Tico Santa Cruz soltou o verbo em um artigo publicado no O Globo online, no dia 16 de abril. Em seu artigo ele se põe a favor da legalização da maconha, critica políticos e questiona as leis, fala também sobre a economia gerada pelo tráfico, corrupção e a violência, consequências da proibição.

Em um texto claro e direto Tico critica usuários da classe artística que se omitem, e se dispõe a ir a marcha da maconha para debater o assunto.

Publicado no Globo Online em 16/04/2008

Há pouco tempo atrás fiz exames toxicológicos completos e fui até a Alerj desafiar nossos representantes a fazerem o mesmo. Após de ter sido barrado na porta da instituição que se diz “a casa do povo”, um deputado recebeu meu manifesto e convidou-me a expor em plenário tal interesse. Tirando este senhor que se colocou a disposição, os demais não só ignoraram meu chamado como ridicularizaram minha atitude. Pois bem, se estamos discutindo política de segurança pública e sugerindo que uma parte da sociedade interessada em dialogar a respeito da legalização da maconha não possa se manifestar e se posicionar a favor de um plebiscito visando uma reformulação efetiva na lei para que a mesma passe a legislar de forma inteligente, abrangente e eficaz um assunto tão importante e que se perdura sem solução há décadas, por que então nossas autoridades dos setores militares, judiciários, legislativos e executivos não se colocam à disposição da sociedade para esta pequena prova científica de que estão sendo coerentes com o que defendem?

Antes de tudo, vamos a informações relevantes sobre o tema para que os leitores não atirem suas pedras com frases de efeito, repetindo paradigmas sem o conhecimento necessário para o debate:

“Um importante investigador do crime organizado, o inglês Peter Lilley, consultor de segurança de grandes corporações mundiais, afirma que o dinheiro ilegal em circulação no planeta alcança a cifra extraordinária de US$ 1,5 trilhão. Três vezes mais do que o Produto Interno Bruto brasileiro (leia-se que esta informação corresponde ao livro ‘CV e PCC irmandade do crime’, de Carlos Amorim). Tal quantidade de dinheiro não poderia ser movimentada fora dos sistemas bancários e de capitais em escala global. Simplesmente porque não existe essa quantidade de dólares em papel-moeda. Não dá – definitivamente – para colocar US$ 1,5 trilhão sobre uma mesa. É dinheiro envolvido nas grandes operações de lavagem do tráfico de drogas, do contrabando internacional de armas de guerra e possivelmente do terrorismo.

O governo brasileiro faz alguns esforços para combater o narcotráfico. É verdade. A Polícia Federal é recordista continental na apreensão de drogas. Mas nossos governantes, apesar das tímidas CPIs e das operações militares de fronteira, não se dão conta de que a droga é um tipo de comércio que supera o da construção civil, estaleiros e grandes setores da indústria. É uma das atividades econômicas mais rentáveis da terra. Na prática, o governo continua a ver o problema como uma simples questão policial, quando é um desafio de sobrevivência e de soberania.(…) A operação criminosa de Fernandinho Beira-mar rende, segundo a polícia, US$ 4 milhões lucro líquido por mês, cerca de US$ 44 milhões por ano. Sem impostos. É uma das mais rentáveis empresas do país”.

Dito isto, podemos entender a preocupação de alguns setores de nossas autoridades que têm conhecimento dessa movimentação milionária e quiçá se alimentam e se abastecem no mesmo mercado em perder tal receita. Vale a pena ressaltar que o livro “Tropa de elite”, em suas primeiras edições antes do lançamento do filme que foi recordista em prêmios no cinema nacional, trata muito bem do envolvimento de políticos com traficantes, abordando a corrupção enraizada nas instituições que teoricamente deveriam combater o crime organizado, mas que se tornaram parasitas do mesmo numa relação praticamente simbiótica.

Vejam que curioso. Após o fenômeno “Tropa de elite”, assistido por milhões de pessoas de forma ilegal através de discos piratas, um mercado que está diretamente ligado ao tráfico de drogas, a sociedade passou a colocar toda a culpa da violência no usuário, que diante dessa lei retrógrada e que não mostra resultados tornou-se o principal financiador dos conflitos. Porém não é questionada a forma pela qual armas entram no país. Qual fora a última grande apreensão de material bélico feita pela Polícia Federal, que é a principal responsável pelo controle de nossas fronteiras? Quem é que monitora e patrulha o litoral extenso do Rio de Janeiro para que seja evitada a chegada de embarcações em praias inóspitas de nosso estado?

Vamos mais além. Acabamos de verificar que á alto o valor financeiro gerado no comércio de drogas nas comunidades dominadas pelo tráfico e no noticiário sempre se observa que, quando a policia invade e domina por hora estes locais, apreende munição, fuzis, entorpecentes e os soldados do crime, existe um capital que provavelmente fica guardado para o movimento do tráfico, gastos e lucros. Por que nossas autoridades nunca mencionam a apreensão desse dinheiro? Será que vale a pena pensar em legalizar um produto que rende tantos investimentos para compra de policiais, juízes, políticos, autoridades de todos os escalões de nosso estado? É claro que não. É do salário extra de muita gente que estamos falando.

Nosso prefeito Cesar Maia é um homem de conhecimento, gosta de polêmicas, não é por acaso que, ao invés de fazer investimentos em educação e saúde, preferiu aplicar seu dinheiro em obras sem licitação para o Pan-americano, superfaturar uma Cidade da Música e rezar para o Senhor do Bonfim reverter a situação caótica que nossa cidade se encontra numa epidemia de dengue.

Mas por que estou colocando isso nesse assunto? Simples. Com a verba da impostação de uma droga como a maconha, consumida por celebridades, médicos, advogados, estudantes, jornalistas, professores, políticos, policiais, gente de todos os segmentos da sociedade que fica na sombra por não desejar se expor ao preconceito cego de um povo que esta sendo massacrado por uma guerra estúpida, poderíamos pagar melhor nossos professores, oferecer melhores condições de atendimento nos hospitais, dentre outras ações sociais que permanecem ignoradas pelo poder publico.

Legalizar a maconha não significa autorizar o porte e o uso irrestrito por quem quiser, em qualquer lugar. Assim como existem leis restringindo e informando os usuários de álcool e tabaco, a maconha deverá estar dentro de uma legislação e aqueles que infringirem estas regras serão punidos como qualquer outro cidadão que não respeite as leis.

É legitima a marcha da maconha e, se os usuários da classe artística fossem menos covardes e menos omissos e resolvessem aparecer em peso para fortalecer este diálogo usando sua imagem para quebrar esse tabu e fazer com que as pessoas pensassem de maneira menos limitada, talvez em alguns anos pudéssemos diminuir o número de inocentes mortos nessa guerra inútil que jamais fez com que alguém que usasse drogas deixasse de fazê-lo. Ao contrário, o mercado só cresce e a polícia continua perdendo seus soldados, assim como a sociedade seus cidadãos para um mercado que rende lucros estratosféricos para uma minoria privilegiada que se alimenta desse paradigma.

Se assim vocês preferirem, continuemos enxugando gelo, mas deixemos de ser hipócritas e permitamos que aqueles que não concordam com esse holocausto urbano se manifestem pelo direito legítimo de decidir o que é bom ou não para suas vidas. Viver em democracia é acima de tudo entender que pensamentos opostos têm o mesmo espaço dentro da sociedade e precisam ser expressos. Existem campanhas de prevenção às drogas, mas como ensinar as crianças a se prevenirem das balas perdidas nos conflitos diários?

Se no dia 4 estiver no Rio, estarei à disposição para debater o assunto na “Marcha da maconha”. Artistas, manifestem-se.

Tico Santa Cruz é músico