Marcha da Maconha – Brasil 2008 » Blog Archive » BA: Para organização, proibição revela “pouco conhecimento” sobre o evento

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Por Guiherme Lopes, do A Tarde On-line

A organização da “Marcha da Maconha” em Salvador anunciou, nesta quarta-feira, 30, a suspensão temporária do evento na capital baiana. A manifestação estava marcada para ocorrer neste domingo, 4, mesma data em que acontecerão outras 234 marchas semelhantes em outras cidades ao redor do mundo. Uma decisão liminar da juíza Rosemunda Souza Barreto, da 2ª Vara de Tóxicos e Entorpecentes de Salvador, no entanto, acatou um pedido do Ministério Público (MP) estadual e proibiu na última terça-feira, 29, a realização do evento em Salvador.

Em entrevista ao A Tarde On Line, o antropólogo e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Edward MacRae, membro da organização do evento na capital baiana, informou que a suspensão temporária do evento foi decidida porque “os organizadores da marcha não pretendem cometer crime de desobediência judicial”. Ele explica, no entanto, que tentarão reverter a decisão judicial nos próximos dias.

Para MacRae, a reação do Ministério Público e da juíza Rosemunda Barreto revela a parte “repressora e anti-democrática” do Estado brasileiro. “Você pede para pensar uma nova lei e já dizem que é apologia, será que não podemos pedir mudanças nas leis? O problema é que, quando tocamos no assunto das drogas, as pessoas passam a agir por estereótipos”, afirmou.

Segundo ele, a atitude demonstraria também “pouco conhecimento sobre o conteúdo e os objetivos da marcha”, que o organizador afirma pretender agir dentro da legalidade. No site do evento há um “Guia para a Marcha” que inclui, entre outras recomendações, a de não levar nem consumir maconha no evento. Menores de 18 anos também haviam sido proibidos de participar da marcha. O objetivo da caminhada, segundo o site, é promover uma maior discussão sobre a forma como se trata as pessoas que consomem maconha e reunir aqueles que não acreditam que elas sejam criminosas.

O professor mostrou-se também indignado com as declarações do promotor de Justiça Paulo Gomes Júnior, responsável pelo pedido realizado pelo MP para a proibição da marcha. Gomes disse desconfiar da presença de traficantes por trás da organização do evento. “Será que somente aos traficantes interessa a questão das drogas?”, questiona MacRae, que é doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo e pesquisador na área de drogas desde 1986 (acesse aqui o currículo do professor).

O antropólogo mostrou-se satisfeito, no entanto, com a discussão surgida em torno da Marcha e das questões por ela levantadas desde segunda-feira, 28, quando o MP entrou com um pedido de suspensão do evento. “Sem querer, a promotoria fez o trabalho que a marcha pretendia fazer, que era levantar o debate: olha a repercussão na mídia! Eles deram um tiro no pé”, acredita.

PRECIPITAÇÃO – Para o advogado Anderson Cavalcanti, a decisão liminar tomada pela juíza Rosemunda Souza Barreto é precipitada. Ele explica que até o momento não há indícios de que nenhum crime tenha sido cometido pela organização do evento. “A manifestação foi organizada, em sua maior parte, por estudantes universitários que pretendem mostrar pacificamente idéias que eles consideram aceitáveis, direito que é assegurado pela Constituição Federal”, explica. Ele indica, ainda, que um crime só pode ser detectado através de investigação, procedimento que não foi realizado até o momento.

“Meu pensamento, enquanto advogado, é o mesmo de Voltaire: não concordo com o que você diz, mas defenderei, até a morte, seu direito a dizer”, afirma o jurista referindo-se à causa defendida pelos organizadores da marcha.

SÃO PAULO – Enquanto em Salvador a Justiça proibiu o evento, em São Paulo, a juíza Maria Fernanda Beli negou um pedido semelhante feito pelo MP daquele estado que requeria o impedimento da realização da caminhada na capital paulista. Desta forma, na capital paulista, a convocação da Marcha da Maconha está mantida para o próximo domingo, 4 de maio, no Parque do Ibirapuera. O MP-SP, no entanto, já recorreu da decisão da juíza.

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