Marcha da Maconha – Brasil 2008 » Blog Archive » Não acenderão agora!

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do portal O Tempo

O movimento pela independência do Tibete extrapola a questão local e é apoiado pelo “mundo livre” com bela cobertura da mídia. Repudia-se a repressão às manifestações e multiplicam-se os atos noutros cantões, na esteira dos Jogos Olímpicos. Mas sob a ótica do governo, os protestos no Tibete são ilegais, pois, oficialmente, aquilo é território chinês. Nós não concordamos com isso, não é? Não concordamos que um tibetano seja impedido de se manifestar contra a ordem vigente. O caso é didático, pois dia 4 último a Justiça proibiu a realização da “marcha da maconha” em oito de 13 capitais brasileiras, inclusive Belo Horizonte. Duzentas e tantas outras cidades do mundo colocaram a marcha nas ruas com o objetivo de promover o debate sobre a descriminalização da Cannabis.

Claro, a independência de um país é diferente do estatuto legal de uma planta. A primeira é uma mudança política profunda, que nos últimos 200 anos (se tanto) tem escalado para uma aprovação quase universal. Já a maconha é uma substância de uso milenar, com propriedades psicoativas, tal como a nicotina, o café e a cerveja. O consumo, aceitação e até institucionalização dessas drogas variam horrores segundo a cultura e a época. A particularidade da maconha é que, em nossa sociedade, muita gente considera seu uso um problema de saúde moral e, portanto, tanto é errado provar quanto aprovar – a tal “apologia das drogas”.

Se a maconha é caso de saúde pública, como proclamam os defensores da repressão, não devíamos tratá-lo como tal? Ou seja, debatendo? É com jovens fumando escondidos dos pais (e estes dos filhos) e da polícia que a sociedade amadurece, e quem sabe equaciona um problema de saúde pública? Está em jogo uma legislação que criminaliza o uso e o usuário, e uma parcela da sociedade, por mínima que seja, que tem outra opinião. A marcha não foi proposta para incitar ninguém a se drogar. Sugere, antes, que o sistema vigente é falho; que o tráfico, a violência e a desinformação são os responsáveis pelos problemas da maconha e, não, suas propriedades psicoativas; que a sociedade faria melhor em opinar e ouvir, e então estaríamos melhor preparados para lidar com o usuário (em vez de tratá-lo como um pária), e este melhor preparado para lidar com a substância. Não duvide que a rede que lucra com a criminalização está rindo à toa com a censura. É no bolso deles (e na vida destruída de várias famílias) que mexe o debate.

É tristemente irônico que os problemas considerados associados ao uso da maconha, como o tráfico, a violência, a dependência e qualquer fraqueza moral dos usuários, persistam, até prova em contrário, neste sistema que defendemos contra a marcha: um sistema em que a informação é objeto de condenação pública. Made in China.

Beto Vianna
Lingüista