Marcha da Maconha – Brasil 2009 » Blog Archive » A maconha e a madrasta

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do portal Última Instância
José Marcelo Vigliar

As colunas de Pedro Estevam Serrano sempre convidam a uma reflexão. O argumento que ele empregou, na excelente coluna publicada no último dia 6 de maio, é sensacional: discute-se a legalização do aborto, há e houve movimentos organizados para a discussão desse tema, sem que se falasse em “apologia ao crime”. Por quê?

No caso da “marcha da maconha” (ou seja lá o nome que se queira dar), o alarde foi enorme. Na cabeça de alguns, um crime doloso contra a vida (aborto), julgado no mesmo tribunal do júri em que a madrasta mais famosa do momento vai ser oficialmente condenada (já que, mesmo sem defesa, já o foi), enseja menos apologia que o uso da maconha.

Que tristeza. A sociedade embarca em (pre)conceitos, sem ao menos se dar conta da real importância dos eventos. Talvez, justamente pelo fato de se sentir despreparada para a reflexão e debate, prefira impedir a marcha. Ilude-se ao imaginar que uma “marcha para a maconha” tenha o poder de fazer que “pessoas de bem” se tornem “maconheiros”.

Quantos, efetivamente, se importam com a legalização da maconha? Quais os estudos comprovados sobre o caráter inofensivo (ou não) da “erva maldita”? O que a legalização provocará, efetivamente, na sua vida? Quem ficará a salvo dos traficantes, caso a legalização não venha? Quantos irão à marcha? A legalização não passará pelo Legislativo?

Aposto que encontraríamos na “marcha da maconha” menos pessoas que as centenas de desocupadas que se aglomeraram na porta da residência da madrasta de Isabella (assim me refiro a ela, porque as emissoras de televisão fazem questão de destacar esse adjetivo, que provoca arrepios no imaginário popular).

Aliás, essas aglomerações também deveriam ser reprimidas. A “massa indignada” também comete um crime ao, sem uma sentença de mérito com trânsito em julgado, afirmar que os autores do homicídio mais importante do momento são os imputados pelas reportagens. Não? Uma rápida lida no artigo 138 do Código Penal o confirma. Aproveite e leia o tipo penal que descreve a incitação ao crime (artigo 286 do mesmo Código), e note que a incitação, fruto da excitação descontrolada, ocorre abertamente.

Como se não tivessem vida própria, como se não tivessem nada a considerar, como se não tivessem filhos e problemas, passam a se ocupar com a vida alheia, como se o homicídio contra crianças fosse uma novidade. A condição social dos envolvidos é o problema, ou o homicídio realizado?

Nem o cansativo e vazio BBB atrai tantos “olhares”. Será que teríamos tanta adesão popular se estivéssemos diante de uma “marcha para a paz”? Lamentavelmente, duvido muito.

Há quem venha repetindo algumas besteiras ditas, como se tudo o que ocorreu fosse a pura expressão da verdade, ou como se a “marcha da maconha” fosse o problema da nossa sociedade.

Esses eventos me levam a recordar um dos supostos diálogos de Sócrates, narrados por Platão.

Sócrates teria debatido com Laques, o conceito de coragem. Laques se distinguira na Guerra do Peloponeso e, para ele, naquele momento, não havia uma outra resposta à pergunta do filósofo: corajoso é o homem que enfrenta o inimigo sem fugir.

Razoável o conceito. Mais: a maioria dos habitantes de Atenas concordavam integralmente com ele. Lembremos, contudo: os atenienses, também não tinham nada contra a escravidão. Não questionavam a submissão das mulheres, e outros valores que, digamos, não combinavam com aqueles ilustres homens que “inventaram” a filosofia e a democracia e nos mostraram as vantagens de refletir sobre temas essenciais.

Sócrates, imitando sua mãe, fez o corajoso general “parir” um novo conceito, fazendo-o pensar. Submeteu as convicções de Laques à lógica, buscando, com um simples exemplo, demonstrar que a coragem não era o que todos pensavam ser. Realmente, na batalha de Platéias, um outro general, batera em retirada (fugira) num primeiro momento para, logo em seguida, derrotar os persas.

E agora Laques, que foge é sempre covarde?

Nícias, outro general que a tudo assistia, segundo narra Platão, propôs um novo conceito, dizendo que manter-se em guerra sem conhecimento poderia significar algo diverso da coragem: o delírio. A percepção do bem e do mal, analisando o momento em que a coragem deveria se fazer presente, haveria de ser considerada. Meras operações militares, portanto, não bastariam, pois não fugir poderia revelar um delírio.

Mais um conceito popular, aceito amplamente, deixava de imperar.

Talvez, se submetêssemos certas convicções a um mínimo de lógica, veríamos que a “voz do povo” nem sempre representaria a de Deus.

Há, é fato, quem ganhe muito dinheiro com esses conceitos populares. Aliás, eles são de fácil aplicação, pois não requerem grandes esforços mentais. Não esforçam as reservas de inteligência (grandes ou pequenas) para serem aplicados. Permitem a criação de diálogos completos.

Alguns ganham o “status” de chavões.

Recentemente, ganhei o livro “O Homem Chavão”(Editora Panda Books). “Não saia de casa sem ele”! Você “puxa” qualquer papo. Fala de tudo. Melhor: não diz nada, não se compromete, e mantém as coisas como estão.

Você pode iniciar a leitura de qualquer ponto do livro. Os autores listaram milhares de chavões, sempre presentes nos cafezinhos, quando você encontra aquele pessoal com quem finge simpatia e se vê na contingência de iniciar um diálogo.

Apenas para exemplificar, tem um clássico, no capítulo intitulado “Calendário” (chavões envolvendo datas): “Segunda é o pior dia da semana”.

Lendo os chavões do interessantíssimo livro, “via” a imagem de Sócrates perguntando: “Será mesmo que toda “segunda-feira” é o pior dia da semana?” Se você não for demitido na terça ou sexta, pode até ser verdade? Se ninguém morrer no sábado, idem.

Será que continuaremos a viver de chavões? O que temos feito com nosso conhecimento? Usamos o conhecimento, a reflexão, a filosofia para mudar nossas vidas (como nos exortavam os estóicos)?

O fato é que os chavões vão sendo repetidos. Embarcamos neles. Sentimos a necessidade de demonstrar simpatia e, assim, vamos condenando as pessoas, vamos abominando os “maconheiros”, e, em delírio, vamos reafirmando, ainda que sem perceber, que a liberdade nos assusta, impedindo-nos de emitir genuínas opiniões, que nem sempre e felizmente coincidem com a da maioria.

Sexta-feira, 9 de maio de 2008