Marcha da Maconha – Brasil 2009 » Argentina, Uruguai e Brasil. Cannabis, homossexuais e hipocrisia

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do blog A poção de Panoramix

A ordem dos nomes dos países, no título do texto, tem uma razão de ser. Diz respeito à situação em que eles se encontram no tratamento de liberdades civis e também ao nível médio de hipocrisia dominante nestes sítios.

Há pouco tempo, o tribunal constitucional argentino – não sei se o nome é este e peço aos juristas preciosistas que me desculpem por tão grave erro – decidiu que o porte de cannabis não é crime. Parece-me que foi a propósito de três indivíduos presos portando alguma quantidade do vegetal fumável. Suas excelências argentinas devem ter respeito por si próprios e pelos demais conterrâneos e consideraram que o que se traz consigo e se usa em casa é problema de cada um. Afinal, em casa você pode andar nu, ouvir música de dupla sertaneja, ler jornal, romance ou filosofia, enfim, entregar-se às atividades mais exóticas.

O consumo de substâncias psicotrópicas em privado, ou seja, sem constituir algum exemplo público, é algo absolutamente circunscrito à esfera pessoal do consumidor. Porque se disso algum prejuízo resulta é para ele e os efeitos serão por ele suportados. Então, o estado não tem razões para restringir a liberdade pessoal, porque seu exercício não atinge as liberdades do restante da sociedade.

No Uruguai, também há pouco, a câmara baixa do parlamento aprovou lei permitindo a adoção de crianças por casais homossexuais. Evidentemente que, se a adoção será possível, as uniões civis de pessoas do mesmo sexo já são. Trata-se, com relação aos casamentos de homossexuais, apenas de disciplinar uma situação que se refere a alguma coisa entre dez e quinze por cento das populações.

No Brasil, a maioria das discussões sobre uniões de homossexuais estanca no acessório que é o termo casamento. Muito caracteristicamente, encontramos sempre algum detalhe lateral para confundir as coisas e evitar penetrar no assunto. Ora, se o problema é o nome casamento – propriedade inalienável da cultura cristã – adote-se outro nome! Basta o código civil falar em uniões afetivas, contrato de convivência, ou qualquer outra coisa, e deixar o intocável casamento para as igrejas.

Por outro lado, achamos a coisa mais normal do mundo que haja famílias monoparentais, que haja violência doméstica em níveis assombrosos, famílias pluri ou monoparentais na miséria, crianças destinadas a serem analfabetas por toda a vida… Mas achamos escandaloso que um casal do mesmo sexo reuna-se legalmente e adote alguma criança. Por quê?

A maioria dos brasileiros está de acordo com a criminalização do porte e consumo de substâncias psicotrópicas. E lança os argumentos pré-fabricados que recebe nas rações diárias ou semanais de informações mutiladas e mal interpretadas dadas na imprensa institucional. Que fazem mal às pessoas e coisa e tal. Mas, nesse ponto eu proponho uma perguntinha bem simples: se alguém entrar em um mercado pode comprar veneno, e isso faz bem?