Marcha da Maconha – Brasil 2009 » Internação de usuário de maconha não é indicada

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Do Diário do Grande ABC

Considerada leve e de moderado potencial de dependência, a Cannabis sativa – nome científico da maconha – causa estado de alucinação que implica alterações da percepção regida pelos sentidos, pelos pensamentos e pelo humor. Segundo especialistas, a droga pode até favorecer o aparecimento de doenças mentais. Mas, em nenhum caso, a internação do usuário em clínicas para dependentes químicos é recomendada por psiquiatras e terapeutas.

“As drogas fazem mal. Todas. Com a maconha, há casos que demonstram que, em certas circunstâncias, quem usa desenvolve certas psicoses. As outras (drogas) todas fazem mais mal ainda. O tabaco faz mal, o álcool também. Agora, há muita campanha (educativa) contra o uso do tabaco, do álcool”, afirma Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que presidiu o País entre 1995 e 2002. “Agora, no caso da droga, todo mundo faz de conta que não (faz mal), que tem a polícia (para lidar com os usuários). Então, não existe nenhuma campanha contra”, conclui.

A psicóloga Edna Bertini, da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) explica que as alterações nos sentidos provocadas pela maconha são percebidas principalmente na visão, na audição e no olfato. De maneira geral, o efeito alucinógeno da maconha aguça esses sentidos.

Nas alterações cognitivas, mais especificamente no que tange o pensamento, a memória e a atenção, o consumo da erva pode causar um estado de letargia, que, principalmente quem fuma muito, experimenta quando está sob o efeito da droga.

Alterações no humor também são percebidas pelos usuários. Vão desde a euforia, que pode aparecer como uma sensação de bem-estar, ao relaxamento, em alguns casos, e até o que a psicóloga qualifica como “mal-estar psíquico”, que pode chegar a ataque de pânico, caso o usuário tenha essa predisposição.

O efeito mais descrito pelos usuários é a fome que aparece depois de fumar maconha. Segundo a especialista, isso acontece porque a maconha altera o funcionamento de neurotransmissores chamados canabinoides, que participam do controle da ingestão alimentar.

Por isso, o THC – princípio ativo da erva – já está presente em medicamentos indicados para melhorar o apetite de portadores do vírus HIV. Por atuar no cerebelo – parte do cérebro responsável pelo equilíbrio, entre outras coisas – a erva é indicada ainda para combater náuseas causadas pela quimioterapia, em tratamentos de câncer.

Segundo especialistas, a maconha é recomendada ainda no tratamento de glaucoma, de esclerose múltipla e de síndrome de Tourette.

Erva chegou com navegantes portugueses

Originária da Ásia, a maconha chegou no Brasil com os primeiros navegantes portugueses. A erva servia de matéria-prima para a fabricação de tecidos que, no século 16, eram utilizados na confecção de velas e cordames usados em quase todas as embarcações.

Historiadores contam que a maconha começou a se aproximar do Ocidente pelas primeiras rotas de comércio estabelecidas entre a China e o Oriente Médio. A erva teria chegado à Europa pelas mãos dos árabes que desembarcaram no continente vindos do Norte da África.

Porém, segundo levantamentos históricos, os portugueses que chegaram ao Brasil não fumavam maconha.

Relatos dos séculos 16 e 17 contam que os africanos trazidos como escravos ao Brasil levavam em suas tangas pequenas bolsas amarradas com sementes de maconha dentro. E os negros teriam sido os primeiros a fumar a erva em território nacional, segundo especialistas no assunto.

Os estudos baseados nestes relatos dão conta de que os quilombolas – escravos fugidos que formavam comunidades autônomas – apresentaram a maconha às populações indígenas com as quais entravam em contato. Os primeiros cultivos mais extensos teriam começado dessa maneira.

A maconha era cultivada também pelos portugueses, para a fabricação de tecidos. Foi apenas no fim dos anos 1920, depois que os Estados Unidos iniciaram campanha mundial pela criminalização da erva, que a maconha foi proibida no Brasil.

Antes, os conhecidos cigarros índios eram comercializados como remédio, indicados para asthma, catarrhos e insomnia, segundo anúncios da época.

Sobre a origem do nome, há uma polêmica semelhante à do ovo e da galinha: maconha seria anagrama de cânhamo; ou vice-versa.

Centros fazem tratamento contra dependência

Estudo divulgado pela Secretaria de Estado da Saúde revela que 67% dos adolescentes que têm problemas com drogas apontam a maconha como a substância de sua preferência. Porém, segundo o Cratod (Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas), que realizou a pesquisa, apenas 15% dos usuários de drogas citam a maconha como a principal substância que usam.

Diretora do centro de referência, a psiquiatra Luizemir Lago afirma que a maconha quase nunca aparece como o principal problema dos usuários de drogas, segundo relatos dos próprios. Para a psiquiatra, o uso de maconha quase sempre aparece associado ao consumo de outros entorpecentes entre os adolescentes.

Luizemir conta ainda que considerar a maconha a ‘porta de entrada” para consumo de outras drogas é uma visão antiquada com pouco contato com a realidade.

Especialistas informam que, na maioria dos casos, o consumo de maconha acontece na juventude. Quando ficam mais velhos, os consumidores da erva tendem a viciar-se mais facilmente no álcool.

Para o tratamento e o aconselhamento de pessoas que enfrentam problemas com drogas, o Grande ABC conta com cinco CAPs AD (Centros de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas). Dois estão em São Bernardo (na Vila Euclides e no Rudge Ramos), um em Santo André (Centro), um em Diadema e outro em São Caetano – que não informaram os endereços das unidades de Saúde.