Marcha da Maconha – Brasil 2009 » Blog Archive » Maconha medicinal vira febre nos Estados Unidos e conquista os moradores da Califórnia

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O Globo Online

LOS ANGELES e RIO – É fim de semana, centenas de pedestres passam pela charmosa Venice Beach, em Los Angeles. Uma mulher atrai a atenção de turistas e moradores da cidade gritando: ‘Você tem alguma dor crônica, enxaqueca, problema de coluna ou outros distúrbios? O médico está no segundo andar para te atender’. A moça entrega folhetos e cerca de 10 pessoas param para perguntar sobre a especialidade do tal doutor. Ela então explica que trata-se de um consultório especializado em maconha medicinal. Aquele é apenas um entre centenas de lugares no estado da Califórnia habilitados para vender a droga.

Os centros, que funcionam como uma espécie de farmácia, são conhecidos como “pot clubs” (clube da maconha). Cidades como Los Angeles e São Francisco possuem até redes desses fornecedores, como os famosos Green Cross e Cannabis Club, vencedor de prêmio de controle de qualidade em 2008. Nesses clubes, o paciente é tratado como um sócio, portando carteirinha e tendo benefícios como serviço de manobrista. Ao todo, 12 estados americanos já aprovaram a lei, mas apenas a Califórnia permite tais farmácias. (Você concorda com a venda da maconha medicinal nos Estados Unidos? Vote aqui!)

Muitos andam aproveitando a brecha na lei californiana para conseguir o privilégio de fumar maconha legalmente, sem correr o risco de ser preso por portar a droga. Diversos desses pacientes são pessoas que aprovam a legalização da erva e mentem ou exageram sobre seus distúrbios para conseguir o passe livre de usuário. Em muitos casos, o paciente não precisa nem aumentar ou inventar. Os próprios consultórios concedem uma recomendação sem grandes exigências. No clube de Venice, por exemplo, uma consulta no valor de 140 dólares praticamente garante o aval clínico para um ano de uso. (Entenda, aqui, como funciona a lei da maconha medicinal nos EUA)

– Tenho recomendação para fumar maconha há um ano. O meu médico não me deu limite, então posso fumar o quanto eu quiser. É só passar no meu fornecedor e comprar – conta o estudante de São Francisco Jacob W., de 27 anos, que também utiliza o serviço de delivery da farmácia Green Cross.

Jacob explica que fuma dois tipos de cannabis (nome científico da droga): a sativa e a indica. Antes de iniciar o tratamento para depressão com a maconha, ele tomava anti-depressivo convencional, mas ele alega que o medicamento o fazia mal do estômago (Saiba mais sobre a maconha medicinal)

– A primeira é para o dia e a segunda, para dormir à noite. Eu alterno os dois tipos durante o dia para controlar o meu humor – conta o estudante.

Maconha pode vir em forma de doces e outras comidas

E não é só o tipo de maconha que é variado. As formas de se consumir a droga também apelam pela criatividade. Ao entrar em uma das farmácias, uma grande variedade de comida, doces, vaporizadores, cachimbos, sementes, plantas e cigarros da droga.

– Você pode comprar umas balinhas baratinhas. Cada uma é equivalente a um baseado (cigarro de maconha) e são ótimas para viagem. O sistema não é sério. Não tem como ser. O consultório do meu clube fica aberto até às 2h – revela Jacob, acrescentando que paga até 90 dólares por cerca de 28 gramas.

Nos outros 11 estados (Alaska, Colorado, Havaí, Maine, Montana, Nevada, Novo México, Oregon, Rhode Island, Vermont e Washington), o paciente pode apenas cultivar sua planta ou indicar alguma pessoa para o cultivo. O governo federal do país não reconhece a erva como um medicamento, portanto para que a medida das 12 regiões se enquadre nas leis federais, os médicos não podem prescrever a maconha e, sim, recomendá-la.

” O sistema não é sério. Não tem como ser. O consultório do meu clube fica aberto até às 2h ”

– As restrições para se comprar a droga legalmente variam de estado para estado, mas em geral a recomendação é a primeira obrigação, pois vai provar uma doença séria e especificar os tipos da maconha e a quantidade que o paciente pode comprar – explica Bruce Mirken, diretor de comunicação do Marijuana Policy Project, escritório envolvido na regulamentação da lei.

Ele confessa que há pessoas burlando a lei para conseguir uma recomendação, mas afirma que para muitos outros tipos de prescrições há pessoas mentindo para médicos.

– Eles inventam uma doença para conseguir prescrições médicas. Não tenho dúvida de que isso aconteça também com a maconha, mas não vamos deixar que pessoas doentes deixem de ter acesso à maconha medicinal porque alguns idiotas estão burlando a lei – completa Mirken, acrescentando que para obter uma recomendação, é necessário ser residente do estado.

” Não vamos deixar que pessoas doentes deixem de ter acesso à maconha medicinal porque alguns idiotas estão burlando a lei ”

Apesar da facilidade, não é todo californiano que apela para a recomendação médica. A dançarina e moradora de Los Angeles Kate D., de 26 anos, preferiu manter fidelidade a seu fornecedor ilegal para não ter seu nome nos cadastros estaduais.

– Qualquer um consegue essa recomendação, mas eu preferi não ter meu nome no sistema deles. Tenho uns quatro amigos que compram maconha nas farmácias, mas eles evitam falar sobre o assunto. Para conseguir, eles alegaram ter insônia, falta de apetite e ansiedade – conta ela.