Carta aberta ao Dexter – “Paz entre nós, guerra aos Senhores!” | Marcha da Maconha – Blog

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do Hempadão
por Renato Cinco

Caro Dexter,
A princípio fiquei bastante chateado com suas declarações sobre a Marcha da Maconha para a MTV. Depois me fizeram perceber que este episódio pode ser uma oportunidade para o diálogo entre o movimento antiproibicionista e o movimento Hip Hop. Diálogo mais do que necessário, pois o Hip Hop é um dos mais importantes movimentos do povo pobre na história, sua trajetória é de luta e engajamento nas causas da classe trabalhadora. O movimento antiproibicionista ainda engatinha e precisa dialogar muito com os outros movimentos sociais, mas de uma forma direta, sem passar pelos filtros da mídia.

É verdade que nosso movimento ainda é majoritariamente de classe média, mas é um erro imaginar que somos “o movimento dos boys pedindo maconha”. É muito ruim reduzir um movimento de classe média a um “movimento dos boys”. Afinal, o que são os “boys”? A classe média brasileira está longe de ser um bando de playboys. Ao contrário, em geral somos apenas trabalhadores assalariados ou profissionais liberais que trabalham duro e ganham mal.

Quem luta pela emancipação da classe trabalhadora deve procurar formar alianças entre os vários setores da classe, independente de estarem no meio ou na base da pirâmide social. Tratar a classe média como inimiga dos pobres interessa apenas a burguesia. Os que marcham em Ipanema ou protestam na USP não são burgueses. Certamente encontramos filhos de famílias ricas entre eles, mas não são maioria, isso nem de longe é verdade.

Porém, o mais importante é entendermos que a luta pela legalização da maconha, e das drogas em geral, é fundamental para a luta de classes no Brasil. Em todo o mundo a proibição das drogas serve apenas de instrumento para a criminalização da pobreza. A “guerra às drogas” não passa de um pretexto para a guerra aos pobres.

Em nenhum lugar do mundo a luta contra as drogas visa os grandes comerciantes e altas autoridades que são os verdadeiros donos do mercado. Por todo lado vemos apenas os pobres, especialmente negros, latinos e asiáticos, lotando as prisões e necrotérios. No Brasil, pioneiro na perseguição a maconha, a proibição esteve estreitamente vinculada à perseguição à cultura dos escravos. Hoje, a prisão por tráfico de maconha é uma das principais causas de encarceramento no país.

Seria muito bom se o movimento Hip Hop se abrisse para este diálogo. Tenho certeza que a legalização da maconha já seria um grande passo para desmontarmos essa máquina de moer carne que é a “guerra às drogas”.

Na Proclamação do Anhangabaú da Felicidade, manifesto do Teatro Oficina, Zé Celso lançou um desafio para o Brasil: “Ser o primeiro país do mundo a promover a grandeza da Abolição da Escravidão do século 21 através da descriminalização Total das Drogas, tirando da Polícia sua administração e passando para o Ministério da Saúde, Cultura e evidentemente da Fazenda… tornando-a uma questão totalmente Cultural, que livrará o país deste Genocídio praticado diariamente principalmente contra as crianças de todos os Canudos-Favelas de todo País”.

Viva os 99%!