Jovens à Margem Da Sociedade – Marcha da Maconha

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Grupo: Members Posts: 1,626 Entrou: 23/05/07 Usuário Nº: 12

*http://envolverde.ig.com.br07/01/2008 – 10h01*Por Fabiana Frayssinet, da IPSRio de Janeiro, 07/01/2007 – Sete milhões de brasileiros e quase 800 mil argentinos engrossam um verdadeiro exército de jovens latino-americanos sem trabalho e fora do sistema educacional, que ameaçam reproduzir a pobreza se não forem tomadas medidas contundentes para reincluí-los, alertam especialistas. No Brasil esse contingente representa quase 20% da população entre 15 e 24 anos de idade, segundo o Informe de Desenvolvimento Juvenil elaborado pelo psicólogo Júlio Jacobo Waiselfisz.Jorge Werthein, diretor da Rede de Informação Tecnológica Latino-americana (Ritla), que encomendou o estudo, aponta como causa dessa situação a “estrutural e histórica desigualdade”, que, como destaca, “é uma realidade em toda a América Latina”. O problema se reflete na entrada no mercado de trabalho, nos serviços de saúde, nas altas taxas de mortalidade, na falta de acesso à educação e até na queda da qualidade do ensino publico, explicou à IPS o dirigente do Ritla, um organismo internacional de cooperação técnica.Werthein afirmou, ainda, que “o aumento da vulnerabilidade traz como conseqüência mais violência”. Em países como Alemanha, Espanha e França há um homicídio para cada cem mil jovens, enquanto na Rússia ou em nações latino-americanas como Brasil, Colômbia e Venezuela são 50 as mortes violentas para cada cem mil jovens. Esses números são confirmados pelo Estudo brasileiro. Os jovens são os que mais morrem vitimas de homicídios ou em acidentes automobilísticos porque “são os mais vulneráveis, ousados, onipotentes, os mais excluídos da sociedade, isto é, se envolvem mais rapidamente em crimes como o trafico de drogas”, acrescentou.Da falta de perspectivas, esses jovens são contundentes ao dizer, por exemplo, “prefiro ser parte do tráfico, embora viva pouco, porque desse modo terei as coisas que outros têm, como uma moto ou um tênis de marca”. É “isso que, lamentavelmente, vivemos em muitos países e reproduzindo em outros da América Latina com o surgimento de gangs”, descreveu Werthein. A investigação do sociólogo Waiselfisz também indica que 9,3% dos jovens brancos na região conseguem terminar o ensino básico, enquanto no caso dos negros apenas 7,7% o conseguem.Porém, nem tudo é tão negativo para Werthein. O especialista afirmou que planos implementados no Brasil nos últimos tempos permitiram, por exemplo, avanços na universalização da matrícula no ensino primário, que ficou em 97%, e na luta contra o analfabetismo entre os jovens, que caiu para 2,4%. Nesse contexto de pensar o futuro, Werthein entende que é prioridade para a região a implementação de planos educacionais de longo prazo (30 ou 40 anos) como a Argentina começou a fazer.O diretor da Ritla destacou que, embora no Brasil ainda não haja uma definição nesse sentido, “a novidade é que começou uma verdadeira mudança conceitual importantíssima” há dois anos, quando o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou a educação como uma prioridade e lançou, mais recentemente, um plano educacional para os próximos 15 anos. Dentro do grande guarda-chuva dessas políticas de longo incentivo, Werthein mencionou iniciativas com as aplicadas pela Ritla, através da inclusão digital, “porque é impressionante a atração que tem sobre os jovens”. Programas que não só melhoram o acesso e a qualidade da informação, mas também permitem a criação de postos de trabalho para jovens nas áreas técnica ou docente.Werthein também se mostra otimista em relação à Argentina, pois percebe que existe uma atenção especial para reverter o ciclo de exclusão e pobreza há quatro anos, quando chegou ao poder o centro-esquerdista Nestor Kirchner, substituído no mês passado por sua mulher, Cristina Fernández. Porém, a situação ainda é dramática nesse país, alertou. Um estudo da Organização do Trabalho indica que 756 mil jovens argentinos com idades entre 18 e 25 anos não estudam nem trabalham, 76% deles são mulheres, que abandonaram o ensino secundário.Guillermo Pérez Sosto, co-autor do informe Trabalho Decente e Juventude, explicou à IPS que mais de 70% dessas mulheres são de famílias pobres, indigentes e, portanto, vulneráveis. “As mulheres, quando provêm do setor mais excluído, são muito passivas. Supõem-se que muitas tiveram filhos ainda na adolescência e permanecem circunscritas ao âmbito doméstico, por isso são tão invisíveis”, disse Sosto. Vê-se que é “comum deixarem a escola para trabalhar, mas que em seguida perdem o emprego e não procuram outro”.Como conseqüências sociais, o especialista concorda com Werthein que “a causa deste fenômeno é a deserção escolar e daí caem no trabalho precário”, que hoje na Argentina ocupa 62% do total de jovens empregados. Como no Brasil, Sosto destacou os efeitos agravantes e nocivos do aumento da oferta consumista. Para conseguir produtos fora de seu alcance os jovens pobres e excluídos fazem “como os antigos lixeiros”, explicou o sociólogo. “Vão para as ruas sem um percurso prévio, vão em “busca da moeda”, como dizem, e a conseguem limpando pára-brisa nos semáforos, pedindo dinheiro ou se aproveitando de algum distraído”, afirmou.Este especialista acredita que a única forma efetiva de realizar mudanças é eliminando as causas com ações preventivas para que os jovens não deixem de estudar, que haja tutores para buscá-los quando abandonam as aulas, que se interessem pelo que lhes acontece, bem trabalhar para que haja menos adolescentes grávidas e menos viciados. Entretanto, com as mulheres é mais fácil, acrescentou. “As meninas não querem trabalhar, e não está claro se querem voltar a estudar, pois não dizem nada sobre isso nas entrevistas. Se o sistema educacional fosse mais acolhedor e o mercado de trabalho menos precário, seria mais fácil para eles e para elas”, ressaltou Sosto.Há experiências de sucesso para melhorar essa situação, mas “que não chegam ao núcleo duro da inatividade”, disse o especialista. Entre elas, um programa implementado em conjunto em 2006 pelo Ministério da Educação da Argentina e a montadora de automóveis Toyota. A idéia visava jovens sem emprego e que não haviam terminado os estudos secundários para capacitá-los e inserí-los no mercado de trabalho. Enquanto se capacitavam para trabalhar na área de produção recebiam salário de 900 pesos (US$ 300) e quando terminavam o estudo entravam como operários na Toyota, com salário de 2.400 pesos (US$ 800). Foram criadas quotas para 300 jovens; 2.600 foram entrevistados, mas nem todos tinham o perfil requerido, que era capacidade de aprendizagem e passar nos exames psicológicos, por isso entraram apenas 60 pessoas, lamentou Sosto.O Uruguai também não escapa da problemática dos jovens sem emprego nem estudos básicos concluídos. Segundo a pesquisa domiciliar de 2006 do Instituto Nacional de Estatística, cerca de 25% dos jovens entre 18 e 24 anos estão excluídos do sistema de trabalho e de ensino. O ritmo de crescimento deste problema era, então, de 3% ao ano. Para combater esta exclusão juvenil, o governo esquerdista de Tabaré Vázquez, que assumiu em 2005, lançou o programa Projoven, vinculado ao Ministério de Desenvolvimento Social, criado pela atual administração, que implementa ações de capacitação para a inserção trabalhista com enfoque de competências e perspectiva de gênero. O objetivo é capacitar os jovens para sua inserção no mercado de trabalho e na educação.“Em todos os casos se trabalha a partir de uma forte articulação com o mercado de trabalho, com o principio de dupla pertinência, através do qual são articuladas as demandas das empresas e se atende as necessidades das pessoas que se capacitam”, disse em um documento entregue à IPS o diretor da Área de Programas do Instituto Nacional da Juventude, Ricardo Amorín. Apesar deste programa, a porcentagem, de jovens que trabalham caiu entre 2005 e 2006 de 55% para 52%. Esses números são maiores nas áreas mais vulneráveis, entre os pobres e as mulheres do interior do país.No México a situação também é complexa, com três em cada 10 jovens entre 20 e 29 anos desempregados e um em cada quatro também sem estudar, segundo a Pesquisa Nacional de Ocupação e Emprego 2006. O presidente Felipe Calderón se comprometeu a criar entre um e 1,2 milhão de empregos por ano, quantidade de postos de trabalho necessária para atender a chegada de jovens ao mercado de trabalho. Para isso lançou, entre outras medidas, o Programa de Primeiro Emprego, que consiste em subsidiar em até 12 meses o total da contribuição patronal para o Seguro Social para quem der o primeiro emprego a uma pessoa. Até novembro, apenas 12 mil novos postos de trabalho foram criados por este plano, isto é, quase nada.O economista Abraham Aparício, da Universidade Nacional Autônoma do México, disse à IPS que esta situação provoca direta e indiretamente a erosão do capital humano e mantém a pobreza e a brecha entre ricos e pobres. Também incentiva a economia informal, o que tem impacto na arrecadação do Estado. Outra conseqüência é o aumento da criminalidade. Aparício citou como “válvulas de escape” o emprego na economia informal, que concentra cerca de 17 milhões de pessoas, e a emigração, considerando que cerca de 500 mil mexicanos deixam o país a cada ano para irem morar nos Estados Unidos.Na capital mexicana, com nove milhões de habitantes e onde governo o esquerdista Partido da Revolução Democrática desde 1997, são implementados programas de apoio a jovens. Um deles criou a figura do tutor social por bairro (onde há mais desemprego e violência juvenil). O tutor, cuja tarefa é financiada pelo município, cuida de atrair grupos de jovens para diversas atividades comunitárias, esportivas e culturais. (IPS/Envolverde)(Envolverde/ IPS)