Marcha da Maconha – Brasil » A cultura vista a partir da prisão do estudante Vitor Arrais Tibola, dono de 23 pés de maconha

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Por Rafael Zanatto – Coletivo Os 23 Pés ([email protected])

O que ocorreu na tarde do dia 31 de maio em uma chácara nos arredores da cidade de Assis expressa à ineficiência da aplicação da nova legislação referente ao plantio de maconha para consumo próprio. As plantas foram encontradas e um dos estudantes que estava em casa na hora da batida policial foi detido em flagrante e deve responder por tráfico de drogas. O Estudante de história Vitor Arrais Tibola foi detido e encaminhado para a cadeia pública de Palmital. Ontem, o estudante foi libertado através de um Habbeas Corpus, devido a demora na análise dos pés de maconha encontrados em sua república. O estudante permaneceu boa parte do tempo algemado no tornozelo e no pulso esquerdo. Deste modo, a aplicação do artigo 28 da Lei n° 11.343/06, que equipara a posse e o cultivo de maconha para consumo próprio na categoria de usuário, emperrou na sua falta de clareza. Até o presente momento, os estudantes respondem por tráfico de drogas, sem qualquer indício de comercialização. As provas são apenas os 23 pés de maconha em sua segunda fase, em um ciclo que dura de sete a nove meses.

As plantas apreendidas estão aparecendo fugazmente nos meios de comunicação, como a Folha de São Paulo on-line, no R7 da Rede Record e no jornal O Globo. A cada aparição, o rótulo de traficantes é imposto aos estudantes, e os produtores dessas notícias fazem largo uso das técnicas de manipulação de imagem. Não são os estudantes traficantes! Esta afirmação pretende se comprovar abaixo, com base em meus conhecimentos técnicos, acerca do plantio.

A produção outdoor da maconha possui um ciclo dividido em sete fases, que pode durar de sete a nove meses, dependendo de vários fatores favoráveis para sua conclusão, como boas sementes, clima favorável, técnicas de plantio e adubagem adequada, etc. Os 23 pés, nessas condições favoráveis, teriam perdas de cerca de 60 por cento de sua produção e mesmo com esse estrondoso sucesso no cultivo, não seriam suficientes para sustentar sequer o consumo de quem os produz.

Nas reais condições em que se encontrava a produção dos acusados, em meio ao uso de sementes naturais sem qualquer manipulação genética e um rigoroso inverno que se aproxima, pode-se afirmar que certamente as perdas seriam intensas. Na segunda fase, a de crescimento vegetativo, as plantas apenas precisam de água e luz em abundância para crescer. Surge então o problema da atrofia.

A atrofia das plantas é ocasionada invariavelmente pela intensa variação climática e decorre de uma sucessão de variações intensas, que acaba por estressar a planta. Outro fator que colabora para a atrofia e fracasso é justamente o estágio em que as plantas foram encontradas pela policia. Os 23 pés de maconha encontravam-se na segunda se sete fases. Neste momento de seu ciclo, a planta demanda água e luz em abundância para que encerre a fase de crescimento vegetativo. Com o advento da irregularidade climática no inverno, a pouca incidência de luz e a temperatura gélida da água acaba por agravar as condições de cultivo, aumentando a porcentagem de atrofia vertiginosamente e o agricultor acaba por ter que plantar em quantidades semelhantes para que apenas de três a cinco pés encerrem as sete fases do processo de cultivo.

Outro fator que colabora para a morte das plantas é sua terceira fase, momento que determina o sucesso ou não da planta, não apenas pelos efeitos do clima, mas pelo aparecimento do sexo. Os machos são sacrificados e apenas as fêmeas são preservadas, pois elas são as únicas que produzem o THC. Restar-nos-ia então uma média de 10 pés. Dos 23, treze sucumbiriam pelos efeitos do inverno.

Na fase de floração, ou seja, na etapa em que nascem os pistilos produtores do THC, é recomendado um clima estável, com 12 horas de sombra e 12 horas de luminosidade. Aumenta-se desse modo a incidência de atrofia dos pistilos, componentes iniciais, que em seu conjunto, formam paulatinamente as flores. A conseqüente atrofia desses pistilos, quando não sucumbem com a planta, pode reduzir em 80 por cento a produção máxima de cada planta. Alguns pés sob essas condições chegam a produzir em média de três a cinco cigarros de maconha, para a tristeza de seu produtor. A baixa luminosidade do inverno não estimularia suficientemente a produção do THC, pois já que essa substância faz a função de proteger a planta de calores intensos, fazendo a função de protetor solar, sua produção diminui ou aumenta de acordo com as condições climáticas. Nessa época do ano, a produção de THC se faz de modo irrisório, aumentando ainda mais a fragilidade da planta. Nunca ninguém se perguntou por que é no calor intenso do Marrocos que é produzido o melhor Haxixe?

Passados todos os reveses do plantio iniciado no outono, o agricultor se daria por satisfeito se sua produção tão castigada não entrasse em contato com as pragas, que comumente atacam o caule da planta, branqueando-o e o ressecando até extinguir todas as forças suas forças, assassinando-a por fim.

Apenas se considerarmos o plantio a partir de seus reveses técnicos, poderemos então entender o motivo pelo qual o estudante possuía tal quantidade. A imprensa tudo faz para aumentar a magnitude da apreensão. A mídia tem a notícia de que precisa e a lei não é cumprida. Notemos a manipulação fotográfica da imagem das plantas apreendidas. A primeira técnica adota o ângulo contra-picado e close, que consiste em aproximar-se do objeto ao mesmo tempo em que captação da imagem é realizada levemente de baixo para cima. Desse ângulo, sem os contornos e as dimensões do ambiente, a imagem aparece significativamente ampliada, falsificando as dimensões do objeto. A imagem que se segue é a exibida pela TV TEM, regional filiada da Rede Globo. O ângulo da imagem manipulada pela técnica cinematográfica aumenta em muito as dimensões reais das plantas.

Agora, caros leitores, observem as mesmas plantas apreendidas, mas com um referencial ótico diferente, aliada ao enquadramento do soldado militar na mesma imagem, nos demonstra as reais dimensões das pequeninas e frágeis plantas.

Em entrevista à Rede Record de televisão, o estudante Vitor Arraes Tibola, algemado no tornozelo e no pulso esquerdo, é questionado se os pés da diamba são de sua propriedade. O estudante então admite, e sem medo afirma que realizava o cultivo da maconha para consumo próprio, do mesmo modo que cultivava outros bens para seu consumo, como alface, cebolinha. Com grande clareza, o estudante afirma que cultivava a planta com carinho, para consumo próprio e que não se arrepende de plantar, porque obedece a sua consciência, ao encarar a maconha como uma planta, e não a partir da ótica preconceituosa da sociedade. O problema colocado por Vitor nos demonstra que é chegada a hora de finalmente legalizar o plantio da maconha para consumo próprio, não apenas como entreposto ao tráfico, mas como reconhecimento de uma cultura que cada vez mais cresce no mundo. No passado, largamente consumida com fins medicinais, essa substância passou a ser proibida por iniciativa dos Estados Unidos no pós II guerra. As culturas e seus cultivadores, instantaneamente viram suas culturas ancestrais serem postas na ilegalidade por interesses comerciais e sociais. Os apoiadores foram a indústria têxtil, que não via com bons olhos a produção de tecidos de cânhamo, por uma classe médica que procurava se afirmar a partir do discurso contra as drogas naturais e a favor dos medicamentos e uma elite que não via com bons olhos os hábitos culturais dos habitantes da periferia, como negros e mexicanos, no caso dos Estados Unidos. A primeira medida coercitiva contra a maconha data de 1915 e foi usada pelos estadunidenses como pretexto para controlar a população mexicana, que massivamente adentrava suas fronteiras em busca de trabalho. É chegada à hora de acabar com a perseguição. Agora a cultura cannabica deve se afirmar. Maconha não era droga para os barqueiros do rio São Francisco. Maconha não era droga para os quilombolas, e nem para os feirantes que a vendiam na Bahia sob o nome de fumo de Angola. Devemos prosseguir com a causa do plantio caseiro para consumo próprio, não apenas para degustar de um bom produto, ou de propor uma alternativa ao tráfico, mas também devemos nos apoiar na necessidade de devolver a essa planta milenar sua verdadeira história, como objeto de consumo da humanidade em vários momentos da construção de nossos caminhos. Apoiemos os estudantes, o cultivo e a cultura da maconha.

Os policiais afirmam que ali poderia ser um centro de distribuição de maconha, mas ignoram os cuidados minuciosos que envolvem seu cultivo. Por esse motivo, não conseguem enxergar que até a planta formar uma raiz suficientemente forte para progredir diretamente no solo, ela deve prosperar sob os cuidados de uma embalagem separada, individual, para que no processo de replante as raízes das plantas estejam obrigatoriamente intactas. Francamente, pólo de distribuição de plantas. Ë fácil sair por ai distribuindo plantas. Sabiam que se entrega pelo correio? Era só o que faltava. Enfim, sobre as dificuldades do cultivo, o professor de Medicina Pública da Faculdade de Direito da Bahia, Rodrigues Dória, apresentou em 1915 no II Congresso Científico Pan-Americano, em Washington D.C. seu testemunho sobre a fragilidade da planta. Os cultivadores da Bahia, na fase de da plana definição de sexo, segundo Dória, impediam até as mulheres de se aproximarem dos pés de maconha. Acreditavam que o contato com substâncias femininas propagadas a partir do corpo da mulher, como as exaladas pela menstruação, poderiam estimular as plantas em vias de definir o sexo a se transformarem em machos, inúteis para o consumo. As informações sobre os cuidados com o cultivo presentes nessa cultura milenar não estão disponíveis em grande escala social. Os conhecimentos dessa cultura resistem em pequenos guetos de cultivadores, que a partir de livros, conversas e estudos prosseguem preservando o que restou em meio a tanta perseguição, preconceito e desinformação. Não é de se assustar que as pessoas pensem que 23 pés são muitas plantas. São, mas não são, se é que vocês me entendem, pelo que pude demonstrar ao longo do texto. Tais quantidades de maconha não abasteceriam sequer uma noite de reunião no tradicional “clube dos diambistas” do Maranhão, que desapareceram do mesmo modo que a última casa de ópio, localizada em um apartamento do segundo andar de um cortiço a Broome Street, 295, leste de Chinatown, em 28 de junho de 1957. Culturas tragadas por imposições culturais de outros lugares. “American Way of Life”. Devemos escovar a história à contra – pêlo para que em meio aos escombros ressaltar a existência desde sempre de nossa cultura.

Thiago Arrais Tibola encontra-se em liberdade, e até agora irá responder por tráfico de drogas. Em apoio ao estudante, funda-se o coletivo Os 23 Pés, que começa suas atividades com a criação de uma rede de informações para monitorar o caso e participar do processo de legalização do plantio para consumo próprio. No momento, a batalha se empreende a favor do enquadramento do estudante no artigo 28, o que impediria sua prisão. Uma rede de solidariedade se estende pela internet e pela comunidade acadêmica. Em frente e avante, rumo à embriaguês, à fumaça, mas não à ignorância.

Referências:

O Barato da História, de Elizabeth Remini Diamba Sarabamba, de Anthony Henman e Osvaldo Pessoa Jr. Cultivo Cannabis, de Alicia Castilla. Arg.

A Última Cada de Ópio, de Nick Tosches