Nota de Repúdio ao concurso “Miss Marijuana” | Marcha da Maconha – Blog

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Sabemos do comprometimento que o Hempadão vem exercendo com a mídia alternativa, sempre vemos boas matérias sobre nossa luta em todo Brasil, conhecemos colunistas que estão nas mesmas trincheiras de luta que nós. Mas não podemos deixar de fazer a crítica, e o estímulo à compreensão da pauta feminista. Concursos de beleza de fato estimulam a rivalidade entre as mulheres, não porque tem que ser assim, mas porque nossa sociedade construiu os concursos de beleza baseados nessa lógica. Não é à toa que a indústria do cinema produz um tanto de filme mostrando isso essas desavenças de bastidores, desde 1951.

Esses concursos são feitos para apreciação masculina (A maioria dos jurados sempre são homens), tanto que de todas as fotos publicadas no facebook do Hempadão 80% das curtidas são de homens. Às mulheres não são estimuladas a buscar informação para emancipação, muitas meninas só acessam o Hempadão em época de Concurso, não são estimuladas com matérias sobre gênero e as drogas, uma pesquisa mostrou isso. Onde estão as mulheres? Concurso de miss, gracinhas, desvalorização intelectual da mulher, que é o que esse tipo de concurso sempre foi.

A noticia do concurso foi publicada no site “O Globo”, e o organizador do Hempadão dizia: “Buscamos incentivar os leitores do blog a escolher com base nas respostas e criatividade das concorrentes, afinal, o Miss Marijuana não é um concurso de beleza em si, mas um ato de militância que mistura o conceito chique e glamouroso de ‘Miss’ com a marginalidade em volta do assunto Maconha, ou ‘Marijuana”. Não pegou bem, não se sabe se foi a tendenciosa flexão da mídia, ou se de fato essa seria a opinião do organizador.

Esperamos não ouvir desculpas blasés, que dizem que não se explora o corpo da mulher, que incentiva as militância feminina, que a maioria dos espaços antiproibicionista construídos hoje são de homens porque as mulheres não querem chegar, afinal lá trás na Revolução de Outubro que em sua maioria eram de homens, mesmo que entre a “base” dos lutadores houvesse milhares de mulheres). Históricamente fomos ceifadas dos debates públicos, somos mais que isso. Em Recife e no Ceará temos o orgulho de ter mulheres à frente da marcha, movimentos compostos por várias companheiras.

Queremos citar um trecho do texto de uma companheira feminista,  Isabela Bentes, que em seu texto 2013 retrata exatamente tudo que trago para contribuição com esse texto:

‘Para além disso, o ponto mais central é a afirmação categóricas que “nós mulheres somos todas Miss, marijuanas ou não” e de que “(…) A noção de humanidade de cada um estará em sua capacidade de conseguir enxergar as várias dimensões e saberes de como se colocar perante o que aprendemos e aperfeiçoamos no dia-dia. O Miss Marijuana é um incentivo a isto (…)”. Não, não somos todas Miss! Não queremos mais ser reduzidas a um estereótipo que nasce dentro de uma sociedade desigual e opressora historicamente, que nos colocam num patamar em que se instrumentaliza a beleza e a sensualidade como símbolo de uma suposta emancipação e autonomia. Não é essa a nossa luta! Não falem em “nós mulheres” para defender uma projeto político supostamente emancipatório que nos colocam no mesmo patamar de uma planta que são veneradas, adoradas e consumidas. Não! Não é esse o papel que reivindicamos em tantos anos de massacre sexista, não é sermos reduzidas às mercadorias de consumo.”

Afinal de contas porque vivemos numa sociedade em que o Miss Universo é mais importante do que o Mister Universo, aliás, alguém sabe ou viu ampla repercussão de homens em concursos de beleza? Existe um concurso de beleza pros homens, o Mister Universo. Porque não foi sugerido o Mister Marijuana? Não foi à toa, vivemos numa sociedade em que existe uma reprodução contínua de valores culturais machistas e sexistas, sobretudo na necessidade continua de uma divisão em dois. Não é à toa que as mulheres têm seus corpos mais explorados na mídia, mais reverenciados como algo belo do que o corpo do homem, a mulher é vista como objeto de apreciação, e por objeto é fácil perceber que é algo que não possui capacidade de pensamento e reflexão, não possui vida, o objeto está lá afim de ser apreciado, usado para o prazer da figura viva, pensante e capaz de refletir. O machismo estabelece as ações e capacidade dos sexos (de acordo com a leitura social do que é homem e mulher). Nossa cultura demarca nosso papéis e ações de acordo com os quadros, ser homem e ser mulher, para perceber isso basta observar os espaços de poder reverenciados (política e ciências tidas como importantes) e os espaços objetificados (revistas de beleza) . O homem está para o conhecimento, a ciência difícil, a capacidade de liderança, de pensamento crítico, a mente, a reflexão (haja vista o Iluminismo que focava todo poder e pensamento ao homem e não à mulher). Não toa os autores e pensadores que lemos são em sua grande maioria homens, a ciência dura e respeitável é aquela das ciências exatas em que a esmagadora maioria é de homens, a grande maioria dos prêmios nobeis são para os homens, quantas lideranças femininas temos em nossas organizações? Porque os espaços políticos são sempre majoritariamente de homens? Quando há a mulher, apenas lhe é dado a chance de pensar sobre o gênero e feminismo, em outros espaços de reflexão ela está ausente. O que resta à mulher? Resta a mulher ser o privado, reforçar a ideia de que o grande homem está em sua frente (“atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher” – sic), é o papel privado pois esta fica em casa, ela foi e é educada a ser contida, discreta, cruzar as pernas, não se impor, afinal, se ela fosse assim seria “masculinizada”, à mulher cabe o papel de falar, de ser cuidadora, mãe, não à toa a grande maioria nos cursos de pedagogia são de mulheres, quem viu muitas mulheres em cursos ou áreas de tecnologias? O conhecimento tido como duro e difícil não é pra as mulheres, as mulheres podem e devem dialogar e estudar letras, essa é a parcela do conhecimento cientifico que a cabe: a comunicação.

Fora do conhecimento demarcado, a mulher está presente como um objeto, sua subjetividade existe apenas quando é firmado sua carência emocional, ou excesso de sensibilidade, fora disso, a mulher é corpo, corpo objetificado a ser apreciado e usado pelo ser ativo. A mulher cabe a passividade sexual, a santidade, saindo disso é a puta a ser apreciada e usada.

E para não ser só a feminista cricri que vocês consumam taxar vez ou outra, sugirmos que os moldes dos concursos sejam mudados (apesar de saber da lógica capitalista que se segue com patrocínio de empresas). Mandar fotos nos espaços de movimento se elas quiserem, promover rodas de debates em suas cidades, mandar cartas manifestos que elas participem ou até mesmo promovam as Marchas da Maconha se desejarem, que possa mandar seus trabalhos sobre os livros lidos. Existem outras formas de contribuir para o empoderar da mulher, o debate apresentado dessa forma só inicia uma série de desconstruções que colocam o papel da mulher em certas condições de forma naturalizada, consolidando posicionamentos que não refletem a totalidade do pensamento feminista.

Reivindicamos, através desta carta, a abertura para o debate que se inicia no campo antiproibicionista, sobre o papel que a mulher tem sido convocada a se colocar nos espaços políticos e principalmente pelos movimentos sociais que lutam pela legalização da maconha. Propomos a abertura do dialogo para que possamos construir outros espaços de participação política da mulher e mobilização das bases, que não tenha como ponto de

partida para a nossa participação espaços como o “Miss Marijuana”.

Nos, militantes antiproibicionistas compreendemos que a atual Guerra as drogas tem sido um instrumento legitimado pelo Estado que tem gerado conseqüências perversas e vulnerabilizado mais as mulheres de diversas formas. Nosso debate busca compreender as formas de opressão de gênero que nasce desta perversa Guerra as Drogas, onde as mulheres têm entrado cada vez mais cedo no comercio de drogas, ocupando lugares de subalternidade no trafico e sendo expostas a serem presas, pois são geralmente as “mulas”, aquelas que carregam a droga. A atual política de drogas tem encarcerado mulheres como nunca na história do Brasil, temos observado nascer medidas que violam o direito dessas mulheres como, por exemplo, a medida adotada pelo Ministério Publico de BH, que tem “sequestrado” recém nascidos de mães que são usuárias de crack, desconsiderando as especificidades da relação mãe-bebe, violando seu direito a maternidade e violentando estas mulheres que foram esquecidas historicamente pelas políticas. Aqui cabe uma pergunta: quantos filhos foram retirados de pais que faziam uso de drogas ¿

Salientamos que vivemos em um Estado hegemonicamente masculino, em uma sociedade patriarcal que busca tolher o nosso direito de autonomia com relação ao nosso corpo. A nossa luta é pelo direito de usarmos o nosso corpo da forma que bem entendemos o Estado não tem o direito de interferir na esfera privada. A criminalização das drogas, bem como do aborto são instrumentos de controle do corpo, principalmente do corpo feminino, e a nossa luta é principalmente pelo fim deste controle. Para promover mudanças reais em nossa atual sociedade, devemos produzir nossa luta antiproibicionista com bases feministas, sob pena de sempre sermos relegadas a espaços secundários, onde os homens decidem pelas mulheres.

Então aproveitamos também para refletirmos sobre a necessidade da integração entre as lutas e as formulações dos diversos movimentos de combate às opressões. No caso específico entre a relação entre feminismo e anti-proibicionismo, ressaltamos a necessidade tanto da preocupação feminista dentro de nossa militância anti-proibicionista quanto a também impostergável necessidade de reflexão anti-proibicionista dentro da atuação feminista, pois só assim seremos todos de fato livres.

Por fim, agradecemos aos companheiros do Hempadão por nos suscitar uma importante discussão, que pretende acima de tudo esclarecer que estamos construindo o nosso debate e ocupando espaços políticos para o avanço de uma agenda antiproibicionista que seja feminista. A militância feminista antiproibicionista não precisa ser estimulada por concursos como o “Miss Marijuana”. Compreendemos a importância de apresentar as nossas pautas políticas, estamos atentas a todas as formas de opressão de gênero, hoje veladas em nossa sociedade, e convocamos todas as mulheres a construírem conosco este debate, em espaços construídos por nos para o avanço da nossa pauta.

Assinam essa nota:

Ingrid Farias 
Luana Malheiros 
Well Leal